Equipamentos de trekking organizados em excesso sobre uma mesa de madeira
Consumo consciente

Menos equipamento,
mais caminhada.

Usar melhor, reparar e escolher com calma

Caderno do Cerrado

Uma publicação sobre o consumo no trekking abre uma pergunta incômoda: quando o equipamento deixa de servir ao caminho e passa a alimentar a própria lógica de comprar sempre mais?

Uma publicação do perfil Coices de Vespa, publicada em 25 de agosto de 2026 com a chamada “Trekking Portugal”, faz uma provocação simples: gostar da natureza precisa significar comprar constantemente novos equipamentos? O texto cita casacos técnicos, mochilas e botas substituídos antes do fim da sua vida útil e propõe uma mudança de direção: reparar, comprar usado, emprestar, doar e escolher peças feitas para durar.

A pergunta serve para quem faz trekking, caminhada, camping ou qualquer atividade ao ar livre. O equipamento é importante — às vezes, decisivo para a segurança —, mas ele não deveria se transformar em medida de pertencimento. Uma trilha não começa na etiqueta da roupa nem termina no lançamento de uma nova coleção.

Quando o equipamento vira identidade

Existe uma diferença entre substituir uma peça que deixou de proteger o corpo e trocar uma peça que ainda cumpre bem a sua função. A primeira decisão pode ser necessária. A segunda muitas vezes nasce de uma cor nova, de uma tendência, de uma propaganda ou da sensação de que o próximo produto finalmente vai nos transformar no tipo de pessoa que imaginamos ser no caminho.

Essa confusão é compreensível. O mercado outdoor vende desempenho, pertencimento e paisagem ao mesmo tempo. Mas ter mais equipamento não significa automaticamente caminhar mais, conhecer melhor o território ou cuidar dele com mais atenção. Às vezes, a mochila que já acompanha o grupo há anos é exatamente a que melhor conhece o ritmo de quem a carrega.

O primeiro critério não é a etiqueta

A palavra “reciclado” pode ser um dado relevante, mas não resume sozinha o impacto de um produto. A avaliação precisa considerar o ciclo de vida: matéria-prima, fabricação, transporte, uso, manutenção e destino final. Uma peça nova com uma promessa ambiental não apaga automaticamente os recursos já empregados na sua produção nem torna desnecessária a pergunta mais básica: eu realmente preciso comprar agora?

Antes de escolher um equipamento, vale perguntar: o que eu já tenho resolve esta atividade? Posso ajustar, impermeabilizar, costurar ou trocar apenas uma parte? Existe uma opção usada, alugada ou emprestada? A peça foi feita para receber manutenção? O tamanho, o peso, a durabilidade e a assistência disponível fazem sentido para o uso real, e não para uma versão idealizada de nós mesmos?

O melhor equipamento para uma caminhada muitas vezes é aquele que já conhece o caminho de volta.

O caminho mais curto pode ser usar o que já existe

Reduzir o consumo não precisa ser uma decisão grandiosa. Pode começar por uma inspeção antes da próxima saída: conferir costuras, zíperes, solado, impermeabilidade, elásticos, tiras e fechos. Uma pequena manutenção pode evitar a compra de um produto inteiro — desde que a peça continue segura e adequada ao terreno e ao clima.

Também é possível organizar um pequeno circuito de cuidado entre pessoas que caminham juntas. Uma mochila pouco usada pode servir a outra pessoa. Uma jaqueta que não cabe mais pode encontrar um novo uso. Um fogareiro, isolante ou bastão pode ser compartilhado quando não há necessidade de cada integrante possuir um. A economia de recursos começa antes da reciclagem, quando um objeto continua útil por mais tempo.

Reparar também é uma habilidade de campo

Um estudo de Lisa Zhang e Jo Hale, publicado na revista Sustainability, investigou barreiras e facilitadores para reparar e reaproveitar roupas a partir de uma pesquisa com 300 cidadãos do Reino Unido. Entre as dificuldades apareceram falta de habilidade, desenho pouco reparável, custo do serviço e a ideia de que comprar outra peça seria mais fácil. Entre os fatores que favorecem o reparo estavam a percepção dos benefícios, o vínculo afetivo com a peça e a criação de rotinas de manutenção.

O estudo não descreve automaticamente a realidade brasileira nem o universo específico dos equipamentos de aventura. Ele ajuda, porém, a enxergar que consumo consciente não depende apenas de informação. É preciso que existam tempo, acesso a conserto, peças de reposição, conhecimento e produtos projetados para continuar em uso. Dizer “repare” sem considerar essas condições transforma uma questão coletiva em culpa individual.

Do comprar ao compartilhar

A economia circular reúne ações que mantêm produtos e materiais em uso por mais tempo. Em sua reflexão sobre circularidade, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente destaca caminhos como recusar, reduzir, reparar, reformar, recondicionar, reaproveitar e reciclar — nesta ordem, sem tratar a reciclagem como resposta única para todo excesso de consumo.

No universo outdoor, isso pode aparecer em plataformas de revenda, lojas de segunda mão, aluguel, oficinas de reparo, trocas entre grupos e doações. O perfil Outdoor Revival, citado como inspiração na publicação original, se apresenta justamente como um espaço de compra e venda de roupas e equipamentos outdoor usados. A existência dessas alternativas não elimina a necessidade de verificar estado, procedência e segurança, mas amplia as possibilidades entre “comprar novo” e “jogar fora”.

Equipamento usado não é sinônimo de equipamento seguro

Consumir menos não significa manter uma peça que já não protege. Solado descolando, tecido estrutural rompido, costura comprometida, zíper que não fecha, impermeabilidade perdida em situação crítica ou danos em equipamentos técnicos exigem avaliação cuidadosa. Em itens cuja falha pode causar queda, hipotermia, desidratação ou outro risco grave, a economia não pode vir antes da segurança.

A escolha consciente é mais exigente do que simplesmente comprar a opção com aparência sustentável. Ela pede conhecer o uso, cuidar do que já existe, aceitar marcas de desgaste e saber quando reparar, substituir, encaminhar para outro uso ou descartar corretamente. Durabilidade não é uma promessa abstrata: é uma relação construída entre o produto, a manutenção e a forma como ele é usado.

A marca de uso não diminui o equipamento. Muitas vezes, ela conta que o objeto continuou cumprindo uma função.

Uma trilha para além da compra

Para a Passos Ecotur, caminhar com responsabilidade também envolve rever a forma como nos relacionamos com os objetos que levamos ao campo. Não se trata de romantizar a falta de equipamento, nem de transformar toda compra em erro. Trata-se de perguntar se a novidade melhora de fato a experiência, protege melhor o grupo ou apenas prolonga a sensação de que sempre falta alguma coisa.

A natureza não precisa de visitantes perfeitamente equipados. Precisa de pessoas capazes de chegar preparadas, respeitar os limites do lugar e voltar sem exigir do território mais do que ele pode oferecer. Às vezes, o passo mais consciente é comprar. Em muitas outras, é consertar, compartilhar, agradecer ao que já nos acompanhou e seguir caminhando.

Fontes e créditos

A matéria parte
de fontes verificadas.

Post de Coices de Vespa — “A crise do consumo excessivo no mundo do trekking” Outdoor Revival — perfil citado como inspiração na publicação original UNEP — Circularity: accelerating sustainable consumption and production ONU — Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12: consumo e produção responsáveis Zhang e Hale — Extending the Lifetime of Clothing through Repair and Repurpose Voltar ao Caderno