Na Serra da Portaria, em Paraúna, um fragmento de dente ajudou a registrar pela primeira vez um terópode no sul de Goiás.
Antes de o Cerrado assumir a paisagem que conhecemos hoje, o sul de Goiás fazia parte de um mundo muito diferente. Rochas formadas no Cretáceo Superior guardam sinais de uma fauna que viveu milhões de anos atrás — e, entre esses sinais, um fragmento de dente ajudou a identificar a presença de um dinossauro carnívoro na região.
O fóssil foi encontrado na Serra da Portaria, um sítio de geodiversidade dentro do Parque Estadual de Paraúna. Pequeno e incompleto, ele não permite reconstruir sozinho o animal inteiro. Ainda assim, suas características foram suficientes para acrescentar uma peça importante à história paleontológica do sul de Goiás.

O que cabe em um fragmento
O espécime, catalogado como Paleo-UFG/V0035, é um dente de tamanho médio que perdeu a ponta. A peça está parcialmente coberta por óxido de ferro e apresenta desgaste nas bordas, marcas que podem ter apagado detalhes úteis para uma identificação mais específica.
Mesmo assim, a coroa preservada é comprimida no sentido entre a face voltada para a bochecha e a face voltada para a língua. A seção transversal da base também é comprimida. Essa combinação de forma e estrutura é compatível com dentes de terópodes, o grande grupo de dinossauros que inclui predadores bípedes de diferentes tamanhos.
Às vezes, uma descoberta não responde a todas as perguntas. Ela mostra que a pergunta certa agora pode ser feita.
O que o estudo permite afirmar
Os pesquisadores classificaram o fóssil como Theropoda indet., expressão que significa terópode indeterminado. Isso é importante: o dente mostra que um dinossauro desse grupo viveu na região, mas não permite dizer qual era a espécie nem atribuí-lo com segurança a uma família específica.
O artigo de 2020 descreveu o achado como o primeiro registro osteológico documentado de um terópode no sul de Goiás. Até então, os registros conhecidos do Grupo Bauru no estado estavam associados principalmente a dinossauros herbívoros saurópodes. O pequeno fóssil ampliou, portanto, a imagem da fauna que ocupava esse território no Cretáceo.
Uma paisagem muito diferente
O dente foi encontrado em camadas da Formação Adamantina, uma unidade geológica do Grupo Bauru, na Bacia do Paraná. Essas rochas se formaram durante o Cretáceo Superior, quando clima, vegetação, cursos d’água e distribuição dos continentes eram diferentes dos atuais.
Por isso, dizer que um predador viveu onde hoje existe Cerrado não significa imaginar a paisagem atual com dinossauros caminhando por ela. Significa reconhecer que o mesmo território atravessou transformações profundas e que suas rochas preservaram parte dessa história.
Por que os dentes são tão importantes
Dentes são estruturas mineralizadas e podem fossilizar com mais facilidade do que muitos outros tecidos. Em vários dinossauros, eles também eram substituídos ao longo da vida. Isso aumenta a chance de que fragmentos isolados sejam encontrados mesmo quando não há um esqueleto completo por perto.
A forma do dente funciona como uma pista. Pesquisadores comparam o contorno da coroa, o grau de achatamento, a seção transversal, o desgaste e outros detalhes com exemplares conhecidos. No caso da Serra da Portaria, essa leitura foi suficiente para reconhecer um terópode, mas não para avançar até uma espécie.
O território ainda pode revelar mais
O estudo também chama atenção para o potencial fossilífero do Parque Estadual de Paraúna. A Serra da Portaria está a cerca de 38 quilômetros ao norte da área urbana de Paraúna e reúne formações rochosas, vegetação de campo e camadas sedimentares que interessam tanto à paleontologia quanto à geoconservação.
Um achado como esse não transforma o local em uma vitrine para coleta. Ao contrário: ele mostra por que fósseis precisam permanecer sob responsabilidade de pesquisadores e instituições. Retirar uma peça, deslocar uma rocha ou alterar o ponto onde o material foi encontrado pode apagar informações sobre sua idade, sua formação e sua relação com o ambiente.
Caminhar também é aprender a não levar
Para quem visita áreas de geodiversidade, a orientação é simples: confirme se o acesso está autorizado, siga as regras do parque e do condutor responsável, não recolha fósseis ou fragmentos e não altere as formações rochosas. O valor de uma paisagem não está apenas no que pode ser levado dela.
Na Serra da Portaria, um pedaço de dente ajudou a recontar uma parte da história de Goiás. A próxima descoberta pode depender justamente de aquilo que ainda permanece no lugar, protegido, esperando uma pergunta cuidadosa.

