Pessoa segurando um dente fossilizado de dinossauro carnívoro encontrado no Alasca; imagem ilustrativa, não é o espécime de Paraúna
Paleontologia e território

Um dente,
um passado predador.

Um fragmento, uma formação geológica e uma nova leitura do Cerrado antigo

Caderno do Cerrado

Na Serra da Portaria, em Paraúna, um fragmento de dente ajudou a registrar pela primeira vez um terópode no sul de Goiás.

Antes de o Cerrado assumir a paisagem que conhecemos hoje, o sul de Goiás fazia parte de um mundo muito diferente. Rochas formadas no Cretáceo Superior guardam sinais de uma fauna que viveu milhões de anos atrás — e, entre esses sinais, um fragmento de dente ajudou a identificar a presença de um dinossauro carnívoro na região.

O fóssil foi encontrado na Serra da Portaria, um sítio de geodiversidade dentro do Parque Estadual de Paraúna. Pequeno e incompleto, ele não permite reconstruir sozinho o animal inteiro. Ainda assim, suas características foram suficientes para acrescentar uma peça importante à história paleontológica do sul de Goiás.

Diferentes vistas do fragmento de dente de terópode encontrado na Serra da Portaria, incluindo sua seção transversal
A Figura 2 do estudo mostra diferentes vistas do dente e sua seção transversal. A barra de escala original corresponde a 20 milímetros.Figura 2 de Candeiro et al. (2020), Research, Society and Development, CC BY 4.0; recorte editorial.

O que cabe em um fragmento

O espécime, catalogado como Paleo-UFG/V0035, é um dente de tamanho médio que perdeu a ponta. A peça está parcialmente coberta por óxido de ferro e apresenta desgaste nas bordas, marcas que podem ter apagado detalhes úteis para uma identificação mais específica.

Mesmo assim, a coroa preservada é comprimida no sentido entre a face voltada para a bochecha e a face voltada para a língua. A seção transversal da base também é comprimida. Essa combinação de forma e estrutura é compatível com dentes de terópodes, o grande grupo de dinossauros que inclui predadores bípedes de diferentes tamanhos.

Às vezes, uma descoberta não responde a todas as perguntas. Ela mostra que a pergunta certa agora pode ser feita.

O que o estudo permite afirmar

Os pesquisadores classificaram o fóssil como Theropoda indet., expressão que significa terópode indeterminado. Isso é importante: o dente mostra que um dinossauro desse grupo viveu na região, mas não permite dizer qual era a espécie nem atribuí-lo com segurança a uma família específica.

O artigo de 2020 descreveu o achado como o primeiro registro osteológico documentado de um terópode no sul de Goiás. Até então, os registros conhecidos do Grupo Bauru no estado estavam associados principalmente a dinossauros herbívoros saurópodes. O pequeno fóssil ampliou, portanto, a imagem da fauna que ocupava esse território no Cretáceo.

Uma paisagem muito diferente

O dente foi encontrado em camadas da Formação Adamantina, uma unidade geológica do Grupo Bauru, na Bacia do Paraná. Essas rochas se formaram durante o Cretáceo Superior, quando clima, vegetação, cursos d’água e distribuição dos continentes eram diferentes dos atuais.

Por isso, dizer que um predador viveu onde hoje existe Cerrado não significa imaginar a paisagem atual com dinossauros caminhando por ela. Significa reconhecer que o mesmo território atravessou transformações profundas e que suas rochas preservaram parte dessa história.

Por que os dentes são tão importantes

Dentes são estruturas mineralizadas e podem fossilizar com mais facilidade do que muitos outros tecidos. Em vários dinossauros, eles também eram substituídos ao longo da vida. Isso aumenta a chance de que fragmentos isolados sejam encontrados mesmo quando não há um esqueleto completo por perto.

A forma do dente funciona como uma pista. Pesquisadores comparam o contorno da coroa, o grau de achatamento, a seção transversal, o desgaste e outros detalhes com exemplares conhecidos. No caso da Serra da Portaria, essa leitura foi suficiente para reconhecer um terópode, mas não para avançar até uma espécie.

O território ainda pode revelar mais

O estudo também chama atenção para o potencial fossilífero do Parque Estadual de Paraúna. A Serra da Portaria está a cerca de 38 quilômetros ao norte da área urbana de Paraúna e reúne formações rochosas, vegetação de campo e camadas sedimentares que interessam tanto à paleontologia quanto à geoconservação.

Um achado como esse não transforma o local em uma vitrine para coleta. Ao contrário: ele mostra por que fósseis precisam permanecer sob responsabilidade de pesquisadores e instituições. Retirar uma peça, deslocar uma rocha ou alterar o ponto onde o material foi encontrado pode apagar informações sobre sua idade, sua formação e sua relação com o ambiente.

Caminhar também é aprender a não levar

Para quem visita áreas de geodiversidade, a orientação é simples: confirme se o acesso está autorizado, siga as regras do parque e do condutor responsável, não recolha fósseis ou fragmentos e não altere as formações rochosas. O valor de uma paisagem não está apenas no que pode ser levado dela.

Na Serra da Portaria, um pedaço de dente ajudou a recontar uma parte da história de Goiás. A próxima descoberta pode depender justamente de aquilo que ainda permanece no lugar, protegido, esperando uma pergunta cuidadosa.

Fontes e créditos

A matéria parte
de fontes verificadas.

Portal 6 — Fragmento de dente encontrado em Goiás revelou que dinossauro carnívoro viveu onde hoje fica o Cerrado. Candeiro et al. (2020) — First record of a theropod from the Late Cretaceous of the Bauru Group, southern Goiás State, Brazil — DOI 10.33448/rsd-v9i8.5261, licença CC BY 4.0. Repositório da UFG — registro institucional e arquivo do artigo de Candeiro et al. (2020). Jornal UFG / Fapeg — síntese dos registros de fósseis do Cretáceo em Goiás e do trabalho paleontológico no sul do estado. Comunica UFU — explicação sobre a importância dos dentes na identificação de dinossauros carnívoros. Crédito da imagem: capa — Paxson Woelber (usuário Mudflattop), Wikimedia Commons, dente de dinossauro carnívoro encontrado às margens do rio Colville, Alasca, CC BY-SA 3.0; imagem ilustrativa, não é o espécime de Paraúna. Crédito da imagem: Figura 2 — Candeiro et al. (2020), Research, Society and Development, CC BY 4.0; recorte editorial. Licença da imagem de capa — Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 Unported. Licença da figura científica — Creative Commons Attribution 4.0 International. Voltar ao Caderno